Blood Sugar Sex Magik: A grande virada do Red Hot Chili Peppers

Lançado em 24 de setembro de 1991, Blood Sugar Sex Magik tornou o que hoje é o Red Hot Chili Peppers

Quando o Red Hot Chili Peppers lançou seu álbum de 1991, Blood Sugar Sex Magik, a banda já havia experimentado uma vertiginosa variedade de altos e baixos.

Ao longo de seus primeiros sete anos de existência, o grupo comeu o pão que o diabo amassou na cena musical de Los Angeles, ganhou reputação como uma banda que mandava bem ao vivo, colaborou com a lenda do funk George Clinton, perdeu um companheiro de banda para uma overdose de heroína (guitarrista Hillel Slovak) e teve uma demissão (baterista Jack Irons). De alguma forma, eles conseguiram continuar, recrutando John Frusciante e Chad Smith e lançando Mother's Milk, de 1989. O álbum provou ser seu maior sucesso comercial até agora, graças em grande parte ao cover de Higher Ground, do grande Stevie Wonder. Quando os anos 90 chegaram, a banda estava pronta para dar o próximo passo em direção ao estrelato.

Alcançar um objetivo tão elevado exigiria o produtor certo. Quando o nome de Rick Rubin apareceu, o grupo estava inicialmente relutante.

"Uau, Rick Rubin, eu não sei", lembrou o cantor Anthony Kiedis à revista BAM em 1991. "Ele gosta de todas essas bandas negativas como Slayer e Danzig. Os Red Hot Chili Peppers sempre foram totalmente na vibe positiva. Nunca vai funcionar."

De fato, o currículo de Rubin não parecia alinhado com o estilo dos Chili Peppers. Além das bandas que Kiedis mencionou, o produtor trabalhou com artistas de hip-hop como Beastie Boys, Run-DMC, LL Cool J e Public Enemy. Nenhum seria considerado no espaço aéreo funk-rock que os Chili Peppers encheram.

Apesar disso, a banda se reuniu com Rubin e imediatamente desenvolveu uma relação. "Eles realmente não se encaixavam na categoria de qualquer um dos tipos de música com que eu tinha lidado antes", admitiu o produtor em Behind the Music, da VH1. "Eu pensei que seria um disco muito divertido de fazer."

Evitando o cenário típico do estúdio, a banda decidiu alugar uma mansão em Hollywood. Alegações de que a propriedade era anteriormente propriedade de Harry Houdini eram falsas, mas o local certamente veio com sua atmosfera única e mágica.

"A natureza disso era tão especial: viver nesta mansão dos anos 20, em Hollywood Hills, que não era habitada há anos", lembrou Kiedis ao Entertainment Weekly. "Era uma estrutura grande e fantasmagórica abandonada em que nos mudamos e construímos um estúdio improvisado."

Os colegas de banda viviam lá juntos, menos Smith, que optou por se deslocar em vez disso (supostamente porque ele acreditava que a casa era assombrada). Durante dois meses, o mundo do grupo girou inteiramente em torno da criação do novo álbum. Isso não quer dizer que os Chili Peppers não estavam se divertindo. Pausas na gravação permitiram que a banda assistisse seu amado Los Angeles Lakers na TV ou até mesmo se envolvesse em travessuras bobas como uma competição de barbas. Eles também tinham pelo menos um visitante ocasional.

"Todos nós conhecíamos essa garota que trabalhava na Avenida Melrose e era uma apoiadora da banda", lembrou Kiedis em sua autobiografia Scar Tissue. "Enquanto estávamos na casa, ela nos visitava. Éramos só nós três [Kiedis, Frusciante e Flea], e durante a noite não havia segurança na casa. E como numa cena estranha de um filme ambientado no interior da Inglaterra, esta garota muito jovem, muito auto-confiante, viria e passaria um tempo com cada um de nós, um por um. Ela fazia sexo em todos os quartos, mas a coisa não era puramente sexual; ela de fato gostava de passar tempo com cada um de nós, conversando".

Atividades extracurriculares à parte, a banda era uma força produtiva. Muitas das canções tinham sido inicialmente escritas na estrada, mas no estúdio com Rubin o Red Hot Chili Peppers deu vida a coisa. A banda adotou uma atitude de tentar de tudo, voluntariamente experimentando seu som mais do que nunca. "Ser um Red Hot Chili Pepper é ser livre e não estar amarrado a nada", explicou Flea no documentário Funky Monks, acrescentando que a banda "não estava tentando se encaixar em nenhum molde ou qualquer estilo ou qualquer categoria".

Para Flea especificamente o álbum provaria essa evolução. O baixista sempre aproveitou a chance de destacar suas habilidades, mas optou por uma abordagem mais focada da equipe no que se tornaria Blood Sugar Sex Magik.

"Em vez de eu tentar provar a mim mesmo como, 'Ei, eu sou um puta baixista', e eu posso fazer isso e eu posso fazer aquilo, e eu sou o mais rápido e o mais fodão', era não pensar em tocar, mas apenas pensar em ouvir", explicou. "E apenas tocar o que era certo para que a música ficasse boa."

Mesmo enquanto eles exploravam novas avenidas sônicas, a banda não se afastava muito de seu estilo familiar. O funk ainda forneceu a base para suas músicas, enquanto letras sexualmente provocativas - um cartão de visitas do grupo desde o primeiro dia - permaneceram durante todo o LP.

A inspiração viria de todos os lugares. Give It Away foi desenvolvida por conselhos dados a Kiedis por Nina Hagen. "É sempre importante dar as coisas", disse uma vez a cantora alemã. "Cria uma boa energia. Se você tem um armário cheio de roupas e tenta mantê-las, sua vida vai ficar muito pequena. Mas se você tem um armário cheio e alguém vê algo que gosta, se você doa, o mundo será um lugar melhor."

Uma protagonista diferente inspiraria I Could Have Lied: Sinead O'Connor. A cantora irlandesa e Kiedis estavam na "relação não sexual mais maravilhosa" antes dela abruptamente terminar as coisas com uma mensagem de secretária eletrônica.

Embora eles supostamente tenham gravado cerca de 25 músicas, o Red Hot Chili Peppers reduziu seu álbum para 17 faixas. Entre elas estariam vários clássicos futuros.

Breaking the Girl foi sem dúvida a faixa mais experimental da banda. Entregue em 6/8 de tempo - um estilo mais habitualmente ouvido em valsas do que em canções de rock - a faixa encontrou Kiedis narrando sua relação tóxica com uma ex-amante. Para acertar a percussão distinta, a banda puxou itens metálicos aleatórios - como latas de lixo e calotas - e passou a bater neles.

Ainda assim, foi a balada Under the Bridge que se tornaria a joia da coroa de Blood Sugar Sex Magik. A faixa começou a vida como um poema, com Kiedis refletindo sobre um momento no fundo do poço quando ele estava envolvido com heroína e um membro da máfia mexicana no centro de Los Angeles. Rubin tropeçou nas palavras antes das sessões de gravação da banda.

"Eu tinha ido à casa de Anthony para discutir letras com ele, e ele estava me mostrando seus cadernos de letras, mas  diferentes do que ele tinha escrito. E eu encontrei Under the Bridge e perguntei: 'O que é isso?'", lembrou o produtor. "Eu poderia apenas dizer que ele estava abrindo seu coração. E eram palavras lindas. E nada não foi cantado, tudo o que havia eram palavras na página. Tudo que você poderia dizer olhando para as palavras que era aquilo especial.

A canção se tornaria o single mais bem sucedido da banda e uma das faixas definidoras da época.

Lançado em 24 de setembro de 1991, Blood Sugar Sex Magik marcou o grande avanço do Red Hot Chili Peppers. O LP alcançou o 3º lugar na billboard, prestes a vender mais de 7 milhões de cópias nos EUA.

Mesmo com enorme sucesso, os Chili Peppers não conseguiram evitar o drama. Sentindo-se sufocado pela nova fama da banda, Frusciante saiu da formação menos de um ano após o lançamento de Blood Sugar Sex Magik.

Ainda assim, o LP sempre representará um grande ponto de virada na ascensão do grupo à realeza do rock. "Com esse álbum, realmente nos tornamos como a banda que sempre quisemos ser", admitiu Flea décadas depois ao Guitar World. "Foi como se a gente pegasse o que era ótimo sobre nós e apenas desse muito mais profundidade aos instrumentos e estrutura. O álbum realmente capturou um espaço e um tempo que foi emocionante e divertido."

Por: Paulo Souza