Matt Sorum: Baterista fala sobre reunião do Guns N' Roses, turnê e mais

Confira trecho da autobiografia de Matt Sorum, “Double Talkin’ Jive".

Matt Sorum: Baterista fala sobre reunião do Guns N' Roses, turnê e mais
Imagem: Reprodução/Facebook

Matt Sorum tocou em bandas grandes como The Cult, Guns N´ Roses e Velvet Revolver. Sua autobiografia é uma das mais esperadas do meio do Rock. O livro "Double Talkin' Jive" (algo como 'papo furado' em inglês) tem lançamento previsto para o segundo semestre de 2021. 

"Double Talkin' Jive" narra em primeira pessoa a curiosa trajetória de Sorum, que abandonou o ensino médio para se tornar baterista, mas passou a vender maconha para se sustentar. Com o tempo, passou a contrabandear grandes quantidades de cocaína, até ser salvo pela música. Matt tornou-se baterista de turnê do The Cult e, no ano seguinte, foi convidado por Slash e Duff McKagan para assumir as baquetas do o Guns N’ Roses.

 

Capa do livro 'Double Talkin´ Jive', de Matt Sorum  -  Imagem: Reprodução

 

Porém, já é possível ler alguns trechos do livro que vazaram na internet. Confira a tradução disponibilizada por grupos relacionados ao Guns N' Roses: 

 

”Duff nem consegue olhar em meus olhos e dizer a verdade, e é isso que parte meu coração”
No verão de 2015, ouvi um boato de que Alice Cooper estava fazendo uma nova banda com Joe Perry (Aerosmith) e Johnny Depp. Eu senti que soava emocionante, então liguei para o gerente de Alice, Shep Gordon, que estava em sua casa em Maui.
“Shep”, falei, “Matt Sorum aqui. Como você está? Qual é a dessa banda Hollywood Vampires?”
“Bem, você sabe”, disse Shep, “vamos tentar fazer alguns shows”.
“Quem é o seu baterista?”
“Oh, não temos baterista e baixista.”
“Bem, eu posso tocar bateria”, eu disse.
“Você está dentro!”
Com isso, encerramos a ligação.
Eu saí para o jardim. O ar estava parado e quente, como sempre é em junho em L.A. Fiquei tão feliz em ter falado com Shep. Em seguida, fiquei pensando quem poderia ser bom para o baixo. O primeiro cara que veio na cabeça foi Duff McKagan.
Voltei para dentro, liguei para Duff e disse: “Ei, cara, você está interessado em fazer parte dos Vampires?”
“Parece legal”, disse Duff.
Pouco tempo depois, falei com Shep novamente. “O que você acha sobre ter um estilo de ritmo como Velvet Revolver e GNR e levar isso para os Vampires?”
“Eu amo isso!” Shep gritou.
Mais tarde naquele verão, nós – Alice, Johnny, Joe, Duff e eu, junto com Tommy Henriksen no violão e Bruce Witkin nos teclados— iniciamos os ensaios em Los Angeles. Tocamos duas noites no Roxy on Sunset Strip em meados de setembro e, em seguida, a verdadeira turnê começou, no “Rock in Rio.”
Por alguma razão, eu tive que ir no jato particular com Alice,
Joe, Bruce, Tommy, Shep e Bob Ezrin, o super produtor. O avião da banda estava cheio, Johnny foi no seu próprio jatinho particular, mas Duff teve que pegar um vôo comercial. Não demorou muito tempo para ele me ligar: “Eu não posso acreditar que sou um cidadão de segunda classe”.
“O que você quer dizer?” Eu disse. “Eu estou em uma cama de primeira classe indo para o Rio de Janeiro.”
“Sim, não acredito que não estou nesse jato.”
Eu percebi que esse tipo de coisa realmente afetava Duff, porque ele nunca foi do segundo escalão em uma banda.
No Hollywood Vampires, era Alice, Johnny e Joe, os homens da frente. Ficamos realmente confusos, porque Shep sempre falava sobre os Vampires como uma espécie de supergrupo, não uma banda com três homens e músicos de aluguel. Duff e eu não estávamos nem nas fotos promocionais, e eu disse a Duff: “Sabe, essa é a primeira vez que eu não estive em uma foto da banda. Por que estaríamos nessa banda se não estamos na foto?”
“Sim, cara, eu não gosto disso”, disse Duff. “É estranho.”
A coisa toda ficou ainda mais estranha quando chegamos ao Rio, onde os fãs estavam gritando por Duff e por mim quase tanto quanto por Johnny – e definitivamente mais do que quando viram Alice. O GNR claramente ainda é um grande negócio na América do Sul. O show em si foi muito divertido, mas a alegria que senti depois desapareceu em um instante quando alguém – não me lembro de quem – disse: “Eles vão voltar a se reunir, talvez tocar aqui”.
Curiosamente, era como se eu soubesse imediatamente quem “eles” eram e meu coração começou a acelerar no meu peito.
No vôo para casa, eu não conseguia pensar em mais nada, mas não disse qualquer coisa para Duff. Em vez disso, liguei para ele mais ou menos uma semana depois. “Vamos
almoçar.”
“Uh. . . Tudo bem – disse Duff. “Então, onde vamos?”
“Que tal Soho House?” Eu disse. Soho House é um clube de membros da Sunset Boulevard, então é meio chique. Duff então disse: “Oh, oh. . . ”
De qualquer forma, algumas horas depois, enquanto esperávamos nossa comida no restaurante, eu disse: “Duff, olhe nos meus olhos. Ou faça o que você quiser, mas olhe para mim – e diga que vocês não estão se reunindo novamente.”
Duff imediatamente olhou para a mesa.
“Duff, não, não, pare de olhar para baixo.”
Relutantemente, ele levantou os olhos e disse: “Bem, houve conversas, mas nada aconteceu. São apenas os advogados conversando.”
“Falam sobre o que?”
“Sobre a banda voltar a se reunir.”
“Que banda?”
“Bem”, ele disse, “no momento somos apenas três membros nas conversas – eu, Slash e Axl.”
Eu olhei Duff diretamente nos olhos e disse: “Então você vai falar sobre mim, estou certo? Você vai me ligar antes que eu leia algo na internet? Você pode fazer isso para mim, como meu amigo de trinta anos, alguém que era padrinho do meu casamento? Apenas me avise, mano. Apenas me avise primeiro.”
Na mesma época em que Lemmy morreu, as notícias de que o Guns N’ Roses estava de volta rodava todo o mundo. Houve relatos de que Slash, Duff, e Axl, entre outras coisas, tocaria no Coachella em abril. Aquilo foi apenas a primeira das decepções. Eu nunca ouvi isso vindo de Duff McKagan.
No funeral de Lemmy, em Los Angeles, em 9 de janeiro, Duff e Slash estavam sentados na minha frente, na primeira fila da capela. Não foi nada fácil me concentrar nas palavras que eu queria dizer sobre Lemmy. Meus pensamentos estavam girando em volta da minha cabeça. Muitos dos meus amigos morreram em poucos meses (incluindo meu antigo
companheiro de banda Scott Weiland), e ficamos todos tristes com isso, mas ficou claro que não conseguimos nos preocupar um com o outro enquanto ainda estávamos vivos.
Continuei ligando para Duff, mas ele estava constantemente fugindo de mim, e eu percebi que ele não estava dizendo a verdade. “Duff, o que está acontecendo?” Eu disse.
“Bem, Axl quer usar o baterista”, disse ele. “Mas o cara nem consegue tocar bateria. Eu tenho que falar com Axl e dizer que realmente não posso tocar com esse cara.”
“Espera!” Eu disse. “Como assim, você acha que ele não é bom? E você não pode contar isso para o Axl? Essa seria a primeira coisa que eu diria se eu fosse o baixista e você fosse o baterista. Não lembra o porquê chamei você para tocar nos Vampires? Porque você é meu baixista favorito.”
“Vamos lá, cara.”
“Não. . . . Vá até Axl e diga a ele que você me quer na bateria. Agora”
“Oh, cara”, disse Duff, sua voz meio que estava encolhendo. “Eu já assinei o contrato.”
“Que contrato?”
Mas ele não quis dizer mais nada. Mais ou menos uma semana depois, eu tocaria com minha própria banda, Kings of Caos, em Cabo San Lucas. Duff foi contratado para fazer o show e voou com sua esposa. Como estávamos sentados na van no caminho para o show, perguntei novamente: “Então, o que está acontecendo?”
“Estamos apenas ensaiando. Estamos esperando Axl tomar sua decisão.”
Em seguida ele teve um de seus ataques de pânico. Eu fiz o que costumava fazer: abracei e o segurei até pararmos a beira da estrada. Eu olhei para sua esposa, mas ela permaneceu sentada, sem saber o que fazer. Ele parou de tremer depois de um tempo, e saímos da van para tomar um ar. Ao caminharmos juntos pela estrada, eu disse: “O que está acontecendo com você?”
Ele não respondeu e apenas evitou me olhar.
– Você pode me dizer, Duff. Eu sou um homem; Eu aguento.
Mas ele não conseguiu. Ele não podia me dizer a verdade, e isso quebrou meu coração.
Algumas semanas depois, o Hollywood Vampires foram contratados para realizar uma homenagem a Lemmy no Grammy Awards. Eu pensei que chegaríamos juntos, mas durante os ensaios eu descobri que não íamos juntos como uma banda para o tapete vermelho.
Liguei para a co-gerente dos Vampires, Trudy Green – uma britânica. Mulher com um sotaque chique – e perguntei se houve algum tipo de mal-entendidos.
“Oh não, querido”, disse ela, o que, vindo de um britânico, significa Foda-se!
– “são as três principais figuras caminhando juntas; além disso, Duff não quer entrar com eles.”
“Assim . . . Duff não quer andar no tapete vermelho com a banda?”
Liguei para ele imediatamente.
“Cara. . . . Deveríamos entrar com Alice, Joe e Johnny como uma banda.”
Mas, para minha surpresa, ele disse: “Oh não, cara. Eu estou legal, cara. Eu vou ir com minha esposa e filha.”
Eu não entendi, então eu disse: “Vamos lá, cara. . . . Vamos.”
“Não. . . . Está tudo certo.”
Ele transmitiu vibrações negativas, mas eu não disse mais nada.
Trudy e eu já havia discutido sobre como seríamos
introduzido. Ela só queria que Alice, Joe e Johnny fossem mencionados para subir no palco. Por isso, quando vi Dave Grohl, contei tudo a ele. Ele franziu a testa e disse: “Eu vou chamar você, mano.”
Pouco tempo depois, eu o ouvi lendo o roteiro, e me apresentando, assim como Duff: “E agora, pela primeira vez na TV, acompanhados por Matt Sorum e
Duff McKagan, vamos ouvir Alice Cooper, Joe Perry e Johnny Depp. Os Hollywood Vampires”.
Tocamos “Ace of Spades”, em homenagem a Lemmy, e “As Bad as”
Também tocamos ”I Am ”, escrito por Johnny Depp.
Alguns meses depois, durante a turnê mundial do Hollywood Vampires, fui com Johnny Depp em uma excursão privada do ”Alcatraz”. Johnny havia interpretado o gangster
Whitey Bulger em um filme chamado Black Mass. Enquanto era mostrado o local de gravação, recebi uma ligação do gerente de Axl, Fernando, que eu conheci (junto com sua mãe, Beta) quando ele era um jovem garoto no Brasil que Axl decidiu levar para sua casa.
“Olá, amigo”, escreveu ele. “Como você está? Apenas querendo saber como anda sua agenda. Queria saber se você está interessado em participar de alguns shows e tocar algumas músicas. Avise-me se querer.”
Eu olhei para o meu telefone; eu mal podia acreditar no que meus olhos estava lendo. Eu respondi um pouco depois, dizendo que eu verificaria minha agenda.
Johnny e eu nem tínhamos saído da ilha antes que meu gerente ligasse para dizer que Fernando se ofereceu para pagar todas as minhas despesas de viagem e custos de hotel.
Se eu concordasse em me juntar à banda. Essa era a única forma de pagamento que receberia. Pedi ao meu gerente que voltasse a falar com ele (Fernando) e dizer com uma gentileza ”não, obrigado.”
Quando minha turnê com os Vampires terminou, recebi uma mensagem do Duff: “Ei Matt. Eu só quero dizer que sinto sua falta e te amo uma TONELADA. Quando as coisas estavam acontecendo e tinha as coisas com Frank. . . . eu tive que
recuar basicamente de tudo, espero que você e eu possamos resolver as coisas”
Mano. Amo o Duff.
Suas palavras despertaram todos os tipos de sentimentos em mim, e um dia no final de setembro, enviei uma mensagem para sugerir um almoço no Le Pain Quotidien na Avenida Melrose.
No minuto em que ele chegou, Duff tentou me abraçar. Estava tão desconfortável que eu recuei um pouco. Algo parecia diferente nele, como se ele de repente tinha um ar de quem tinha muito dinheiro e sucesso. Quando ele se sentou à mesa, ele disse: “Não sei por que você não veio tocar conosco quando ligamos”
Perguntei.
“Nós? Por que você não me ligou em vez de mandar seu
gerente fazer isso?”
“Bem, eu pensei que a gerência pudesse lidar com isso.”
“Aquele garoto de dez anos?”
“Ele não tem mais dez anos”, disse Duff, “ele tem trinta e cinco”.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Duff olhou para a mesa. Fazia isso sempre que se sentia desconfortável ou encurralado.
“Lá teria ganhado dinheiro “, disse ele.
Eu olhei para ele, sem saber o que dizer. Depois de um tempo, eu disse:
“O bom de tudo isso é que Izzy e eu começamos a sair de novo. ”
Quando as palavras saíram da minha boca, Duff ficou com um olhar sombrio nos olhos.
“Foda-se Izzy!” ele perdeu a cabeça.
Eu sabia que a má reação dele foi por causa de Izzy recusá-los, então eu disse calmamente: “Bem. . . Izzy disse foda-se para vocês também.”
Duff não respondeu. Em vez disso, ele apenas cutucou sua comida – ele realmente não parecia estar com fome – depois olhou para o relógio e disse: “Tenho que ir”.
“Onde?” Eu perguntei.
“Ensaio.”
“Ensaio? Vocês não acabaram de sair de uma turnê de três meses? Por que vocês estão ensaiando?
“Porque não temos você na bateria”, disse Duff.
Nos levantamos. Quando estávamos saindo do restaurante, dois caras vieram para nós, querendo tirar fotos.
Duff congelou e explicou que não era o momento certo. Eu imediatamente soube o porquê: ele estava com medo de Axl descobrir que ele esteve comigo.
Na rua, Duff desajeitadamente tentou me abraçar novamente, então ele caminhou até o carro e foi embora. Naquele momento, ele parecia como um completo estranho para mim, como alguém que eu não conhecia. Mas talvez era eu quem havia mudado e ele era o mesmo de sempre?
O que eu tenho certeza é que nossa amizade não foi a única coisa que terminou – nossa parceria musical de 28 anos também terminou. Eu não seria mais capaz de ligar para ele ou Slash e perguntar se eles querem tocar comigo. A máquina GNR os havia consumido. Eu sabia que não seria mais capaz de confiar nesses caras. Pela primeira vez, me senti completamente no meu próprio caminho.”

 

Retirado de Forever Gunner