Siga o dinheiro: como financiar o seu negócio

Não importa qual tipo de empresa você pretende começar. Pode ser um delivery de bolo no pote ou uma startup a fim de mudar o mundo. Vai ser preciso dinheiro para investir na empreitada. Conheça as modalidades de crédito que existem para negócios e saiba como consegui-lo

Siga o dinheiro: como financiar o seu negócio

Por: Paulo César Teixeira e Ricardo Lacerda / Você S/A

Uma ideia na cabeça não basta, você sabe. É preciso dinheiro para tirar um negócio do papel. Você até pode começar raspando suas economias – mas fazer isso é arriscado. Se o negócio naufragar, você terá que recomeçar do zero, e sem uma reserva de emergência. Usar uma parte do seu dinheiro é do jogo; tudo, nem pensar.

No mundo dos contos de fadas, há uma alma generosa disposta a financiar seu projeto sem pedir nada em troca. Os startupeiros têm até nome pra isso – dois, na verdade. Love money ou 3 Fs, uma referência ao dinheiro angariado junto a familiares e amigos, ou dos próprios fundadores – do inglês family, friends and founders.

Mas familiares e amigos endinheirados são um recurso escasso, enquanto novos empreendedores nascem aos borbotões, em parte fruto do desemprego de dois dígitos, que levou uma montanha de brasileiros a abrir o próprio negócio.

Existem 13 milhões de microempreendedores individuais no Brasil, dos quais 4,6 milhões começaram um negócio de 2020 para cá. Entram nessa conta cabeleireiros, manicures e pedicures, designers, pequenos comerciantes – existem mais de 400 tipos de profissões que podem ser enquadradas como MEI.

A pergunta é: como conseguir dinheiro para tirar um negócio do papel? As opções são vastas, e o Sebrae dá uma pista. No site deles há um mapeamento com mais de 160 linhas de crédito. Ali tem de tudo: bancões, bancos ou agências de fomento (tipo BNDES), cooperativas e fintechs. A fonte vai depender do tipo de empresa que você vai abrir.

Digamos que, ao melhor estilo CEO do MEI, você queira empreender fazendo bolo de pote na cozinha de sua casa. Você pode até dizer que já tem fogão e geladeira, mas vai precisar da batedeira, das formas e de dinheiro para comprar farinha, açúcar, fermento e outros ingredientes do bolo, além dos potes de fato.


Henrique Petrus/VOCÊ S/A

Daí que pedir crédito para começar pode ser uma boa alternativa. Se o negócio nasce pequeno, como o do bolo de pote, a dica é recorrer ao microcrédito. Pelas regras do Banco Central, os bancos podem usar 2% do dinheiro que ficaria parado no Banco Central na forma de depósito compulsório para oferecer microcrédito, desde que o juro cobrado não ultrapasse 4% ao mês. Além disso, as operações são isentas de IOF, o que alivia o custo para o microempresário.

No microcrédito, empreendedores pegam em média R$ 5 mil, podendo chegar a R$ 20 mil. É possível pedir o empréstimo em um bancão, mas quem mais concede esse tipo de financiamento são as Oscips, Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público. “Elas são mais comuns no Nordeste. Orientam, acompanham e, às vezes, dão garantia solidária ao empreendedor”, explica Adalberto de Sousa Luiz, coordenador de inovações financeiras do Sebrae Nacional.

Mas se o plano é abrir um negócio um pouco maior ou ampliar o que começou na cozinha de casa, talvez seja preciso mais dinheiro. O problema é que bancões costumam ser bastante restritivos na hora de dar crédito a micro e pequenas empresas recém-criadas. E faz sentido, dado que a mortalidade das empresas chega a ser de 60% antes de o negócio completar dois anos de idade. O provável é que eles peçam garantias – que o seu negócio ainda não tem.

Só que aí vira um dilema de Tostines: a empresa quebra porque não tem crédito ou não tem crédito porque quebra?

Ninguém precisa ficar refém de Caixa, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander, já que existem alternativas fora das cinco maiores instituições financeiras. As cooperativas de crédito costumam ser um pouco mais generosas com novatos – e existem mais de 900 delas no país. Bastante populares em cidades do interior, as cooperativas emprestam, em média, R$ 50 mil a empresários iniciantes ou que queiram expandir os negócios. Mesmo que haja mais exigências do que no microcrédito, as condições seguem atrativas. Segundo dados do Banco Central, o banco Sicoob (que é uma associação de cooperativas de crédito) tem a segunda taxa mais baixa para capital de giro – atrás apenas do BTG Pactual.

Fora das cooperativas, existem ainda as Empresas Simples de Crédito (ESC), um jeito dentro da lei de pegar dinheiro emprestado com o “vizinho”. As ESCs foram criadas há dois anos, e permitem que pessoas com um pé de meia usem essa grana para dar crédito a pequenas empresas de forma legal – e não no esquema dos Corleone. A regra é que cada ESC só pode ter como clientes empresas da própria cidade ou de municípios vizinhos. O ticket médio, nas ESCs, é de R$ 15 mil. Só que o mais provável é que a ESC peça garantias, como bens dos sócios da empresa novata. Ou seja, se a empresa ainda não tem patrimônio, a casa ou o carro do empreendedor são dados em garantia naquela operação. Só tome cuidado caso peçam garantias excessivas ou cobrem juros abusivos – pois não há teto de juros nessa modalidade.

Por fim, dá para tentar crédito nas fintechs. Um dos diferenciais é a agilidade na liberação dos recursos – não raramente, isso acontece em minutos, graças à análise automatizada do perfil do tomador de crédito. O volume emprestado e o prazo para a devolução também podem ser generosos.
“Ainda não é uma prática dominante, mas algumas fintechs estão sendo bem agressivas em relação aos prazos”, afirma Luiz. Entre elas estão a Pontte e a Creditas, que afirmam oferecer juros abaixo de 1% ao mês, prazo de até 240 meses e empréstimos que partem de R$ 30 mil, mas podem chegar à casa dos milhões. Enquanto na Creditas o teto é de R$ 3 milhões, a Pontte vai além, podendo chegar a R$ 20 milhões em uma única operação.

As taxas mais baixas e os prazos alongados das fintechs também ficam por conta da garantia que você oferece, claro. Normalmente isso é feito com base num imóvel ou num carro. Mas também há formas de obter financiamento sem colocar o seu patrimônio em risco, como vamos ver agora.

O destino do dinheiro

Um jeito de facilitar a tomada de crédito é saber para o que você vai usar o dinheiro. Fica mais fácil quando o plano de negócio for bem estruturado. Quando a grana vai para maquinário, por exemplo, é possível buscar financiamentos específicos. Nesses casos, o próprio produto adquirido fica como garantia até que você quite o empréstimo integralmente – do mesmo jeito que funciona com um carro e um apartamento financiados.
E é claro que você pode usar uma parte das economias no seu novo negócio. A única recomendação é a que já dissemos: não queimar todas as reservas.

Adalberto Luiz, do Sebrae, sugere que no início de um negócio investidores usem o capital próprio para fazer o negócio girar, e peçam crédito para investimentos maiores – o forno industrial do bolo de pote, por exemplo. Em uma loja, crédito para os móveis, e menos para a mercadoria que será vendida.

Imagine uma pessoa que precisa de R$ 200 mil para começar um negócio, e que conseguiu juntar R$ 100 mil. Faltam R$ 100 mil, certo? O que muitos fazem é gastar o dinheiro na estrutura e depois correm atrás de mais grana para bancar o capital de giro. Dá ruim porque bancos, cooperativas e outros credores preferem financiar a infraestrutura – o chamado ativo imobilizado. “O que a pessoa deveria fazer é pegar o financiamento para custear o ativo imobilizado, já que, quando se está iniciando um negócio, não existe relacionamento com o banco.”

Isso vale especialmente porque o empreendedor ainda terá dificuldades de mostrar que tem fluxo de caixa estável e crescente para honrar o financiamento de capital de giro. Outra fonte comum de crédito, nesse caso, é a antecipação de recebíveis da maquininha de cartão. Para isso, é preciso ter um fluxo de pagamentos, o que é bem menos comum quando se está começando.


Henrique Petrus/VOCÊ S/A

Ajuda “divina”

Até agora, os exemplos de como e onde buscar dinheiro para o seu negócio servem, praticamente, para qualquer tipo de empresa. Mas talvez não funcione tão bem se você tiver uma ideia de startup. É que negócios inovadores, com pegada tecnológica e potencial para crescer exponencialmente em geral começam como uma ideia, mas não são uma empresa operacional e capaz de gerar dinheiro. Eles normalmente não têm uma fonte de receita óbvia nem dão qualquer sinal de que serão lucrativos no curto ou médio prazo.

Aí é preciso buscar um outro mundo de financiamento – que passa bem longe de um banco e do crédito tradicional. É que há muita gente com dinheiro querendo ajudar sua startup a vingar. Só depende de sua ideia ser mesmo uma startup, e não uma farmácia ou uma padaria.

Essas pessoas são os investidores-anjo, gente que aposta, tipo, em dez empresas de uma vez, já esperando que nove quebrem, mas que uma vingue e pague a conta toda. Os anjos são empresários, executivos e profissionais bem-sucedidos que buscam diversificar seus investimentos. Trazem, além do dinheiro, experiência e redes de relacionamento às startups. Não chegam a exercer cargo executivo, mas agem como conselheiros ou mentores, em troca de uma participação minoritária no negócio.

A grana deles pode ajudar na criação de um Produto Mínimo Viável (MVP, na sigla em inglês) – o primeiro passo para transformar uma ideia num negócio de verdade. Pense no Nubank: ele sempre quis ser um banco completo, tal qual um Itaú, mas começou oferecendo um cartão de crédito (o MVP deles) – e usando muito dinheiro de investidores externos para crescer.

Em geral, investidores-anjo se organizam em grupos. “É melhor ter mais cabeças pensando juntas, além de diminuir o risco”, explica Cassio Spina, fundador da Anjos do Brasil, entidade que apoia startups em fase de crescimento e que conta hoje com mais de 500 membros.

Os grupos costumam ter entre cinco e 15 investidores, mas alguns chegam a reunir até 100. O aporte individual de um anjo começa, em geral, em R$ 20 mil. No conjunto, a injeção de dinheiro para uma única startup pode chegar a R$ 1,5 milhão. Em troca, o empreendedor cede entre 5% e 10% da empresa por meio de um acordo de investimento. É o chamado term sheet, uma carta de intenções que estabelece os termos da negociação.

Para chamar a atenção de um anjo, pode-se recorrer a uma indicação ou entrar diretamente em contato com os grupos, como o Anjos do Brasil, o BR Angels Network ou o Urca Angels. Mas há uma pegadinha: na hora de apresentar a ideia, o pitch (apresentação de ideia de negócio), o empreendedor vai sair na frente se tiver um MVP para apresentar. Além disso, ganha pontos quem indicar quais seriam os clientes iniciais para o produto ou solução que criou, uma mostra de que o empreendedor de fato pesquisou sobre o mercado e acredita que há demanda para aquela inovação.

“O que olhamos são quesitos como inovação e escalabilidade, mas também avaliamos time e fundador – afinal, são as pessoas que fazem a diferença, quando demonstram competência e capacidade de execução”, resume Spina.

Seja numa conversa com o gerente de banco ou com um investidor-anjo, a regra é uma só: mostrar que você tem um plano sólido para fazer o negócio dar certo. E que você conseguirá fazer aquilo que era uma ideia virar uma empresa lucrativa.

Uma necessidade infinita

O primeiro crédito é certamente o mais difícil de se conseguir. Essa é uma notícia boa. A não tão legal é que uma empresa precisar de dinheiro novo o tempo inteiro. Crédito funciona como fermento e calor em um negócio que quer crescer de forma acelerada.

Em algum momento, quando o lucro começa a aparecer, aí você consegue usar essa grana para continuar a crescer – em vez de transferir para a sua conta pessoal. O lance é que startups demoram anos para lucrar. A operação da Uber, por exemplo, é deficitária até hoje.

Daí a importância de conseguir uma torneira aberta para garantir que o dinheiro continue irrigando a startup. São as rodadas de captação.  O habitual é que, depois dos anjos, venham os investidores pré-seed ou o seed capital, que semeiam recursos para garantir que aquele projeto de startup, depois de se provar viável, comece a ganhar escala. Quem costuma colocar dinheiro nessa rodada são aceleradoras, e a quantia vai de R$ 200 mil a R$ 1 milhão.

Aceleradora Ventiur tem apetite maior a risco e pode levantar R$ 5 milhões, divididos em 100 cotas de R$ 50 mil, por exemplo. Criada em 2013, ela investe tanto com recursos próprios quanto de parceiros.

O trabalho não é só dar dinheiro: há apoio na criação, em mentorias, modelagem de negócio e outros suportes. Conforme a evolução do negócio, a relação aceleradora-startup passa a se dar na forma de um conselho consultivo.

Movimento semelhante é feito no BoostLAB, programa do BTG Pactual para potencializar empresas. De acordo com Fred Pompeu, head do BoostLAB, a iniciativa trabalha com empreendedores que já têm clientes e faturamento assegurado. Ou seja, é uma empresa que já passou do estágio embrionário. “Escolhemos poucas startups justamente para dedicar bastante tempo, esforço e capital humano para fazer negócio com esses caras”, diz Pompeu.

As próximas rodadas de investimento são nomeadas por letras. No léxico startupeiro,  são as séries A, B, C, D… e assim por diante. Ao contrário do que acontece no futebol (em que a série A movimenta os melhores times e as maiores cifras), no mundo dos investimentos os aportes mais vultosos vêm depois. O Nubank alcançou a série G antes de vender ações na bolsa, o instrumento de gente realmente grande para conseguir dinheiro na praça.

Nessas rodadas, você vende um pedaço do seu negócio a outras pessoas a fim de serem suas sócias. Se você tem a ambição de chegar a esse estágio, o segredo é, desde o começo, pensar em um negócio cobiçável. Boa sorte.
 

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